Primeiro deputado negro do Brasil defendia propriedade e liberdade de escravizados
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Primeiro deputado negro do Brasil defendia propriedade e liberdade de escravizados
Novembro 09, 2023
Porto Velho, RO - Em meio ao ápice no nĂşmero de escravizados trazidos ao Brasil e uma turbulenta IndependĂŞncia, destacou-se um homem negro capaz de ascender Ă elite polĂtica apesar do racismo e se tornar conselheiro de dom Pedro 2Âş, defendendo o direito Ă propriedade e ao mesmo tempo a liberdade dos cativos.
Trata-se de AntĂ´nio Pereira Rebouças, filho de um alfaiate portuguĂŞs e de uma escravizada liberta. Ele foi o primeiro deputado pardo do paĂs apĂłs virar um autodidata em direito e receber concessĂŁo especial para advogar em todo o territĂłrio do ImpĂ©rio brasileiro.
Com atuação polĂtica e pensamento liberal, participou de uma sĂ©rie de movimentos a favor da emancipação do Brasil diante de Portugal e atuou pela consolidação de direitos individuais. Negou sua cor para evitar a pecha de radical ou ser rejeitado nos espaços de poder que frequentava.
O advogado e polĂtico AntĂ´nio Pereira Rebouças, primeiro deputado negro do Brasil - JosĂ© Rosael e HĂ©lio Nobre/Museu Paulista da USPConhecido como "conselheiro Rebouças" ou ainda "velho Rebouças", tem seu sobrenome estampado em uma importante avenida na zona oeste da capital paulista, tambĂ©m em homenagem ao abolicionista AndrĂ© Rebouças e o engenheiro AntĂ´nio Pereira Rebouças Filho, seus descendentes.
Natural de Maragogipe (BA), nasceu em agosto de 1798, filho mais novo entre outros três homens e mais cinco mulheres. Dois dias antes de nascer, eclodiu em Salvador a Conjuração Baiana, que pedia a independência da Bahia de Portugal, a abolição da escravatura e um governo democrático e republicano.
NĂŁo pĂ´de estudar formalmente para alĂ©m dos ensinos elementares da Ă©poca, entĂŁo debruçou-se no direito por conta prĂłpria enquanto trabalhava em um cartĂłrio. Em 1821, recebeu permissĂŁo para advogar apenas em sua provĂncia natal, sendo autorizado a advogar para todo o territĂłrio nacional em 1847.

Leci Brandão (PC do B) foi a segunda mulher negra eleita para a Assembleia de São Paulo, em 2010, depois de um vácuo de quase 30 anos; a pio Marlene Bergamo-27.out.23/Folhapress
Durante a efervescĂŞncia das tensões entre a metrĂłpole e a colĂ´nia, que ensaiava uma independĂŞncia, participou de grupos pela emancipação polĂtica do Brasil, pedindo a instalação de um governo constitucional, integrado por brasileiros.
Era um defensor do liberalismo enquanto prática polĂtica e pensamento filosĂłfico —o contexto era de difusĂŁo do corolário agregado pela Revolução Francesa em 1789: liberdade, igualdade e fraternidade.
DaĂ vinha a defesa da igualdade perante a lei, independentemente de cor ou classe social. Rebouças via na configuração jurĂdica imperial possibilidades de inserção dos escravizados, sem a necessidade de maior ruptura institucional, e por isso nĂŁo Ă© considerado abolicionista.
Durante seus mandatos como deputado, opĂ´s-se Ă pena de morte a participou de debates para reformas da Constituição de 1824, a primeira do paĂs e a Ăşnica do ImpĂ©rio.
NinguĂ©m pode tirar a vida do homem, que nĂŁo deu nem pode reparar; tirá-la Ă© contra o poder divino, está fora do poder humano; nenhum legislador pode decretar a pena de morte”
Antônio Pereira Rebouças
Em discurso contrário à pena de morte no Brasil
Apostava na educação como forma de alcançar estabilidade social e financeira. Junto de José Bonifácio e outros liberais, acreditava que o trabalho livre era não só mais proveitoso, mas mais lucrativo que o regime escravocrata.
Por ser pardo —descendente de um pai branco e uma mĂŁe negra—, AntĂ´nio Pereira Rebouças considerava-se diferente dos outros negros, apesar de nĂŁo ser visto como igual pelos brancos que o rodeavam nos espaços que frequentava.
Por isso o racismo permeou toda a sua atuação polĂtica. ApĂłs derrotas polĂticas em Salvador, decidiu se mudar para o Rio de Janeiro em 1823, e chegou a ser impedido de seguir caminho em Porto Seguro, precisando provar sua identidade para continuar.
No ano seguinte, quando foi indicado e tomou posse como secretário do Governo Provincial de Sergipe, sofreu repressão dos proprietários locais por sua cor de pele e por estar à frente de importantes assuntos Executivos.
É a partir destes acontecimentos que o polĂtico passa a tornar central a luta por direitos civis. Mesmo assim, nĂŁo se referia Ă questĂŁo racial diretamente —tentava fazer de seus mĂ©ritos tema central e evitar tornar sua cor um problema polĂtico.

AntĂ´nio Pereira Rebouças, filho de um alfaiate portuguĂŞs e de uma escravizada liberta, foi o primeiro deputado pardo do paĂs apĂłs tornar-se Reprodução/Biblioteca Nacional
Em 1828, elegeu-se deputado pela Bahia pela primeira vez, reeleito duas vezes pela provĂncia natal e um quarto perĂodo, representando Alagoas, em 1845. Foi ainda deputado provincial baiano entre 1834 e 1845, já que Ă Ă©poca era possĂvel acumular os dois cargos parlamentares.
Evitou fazer qualquer associação entre sua cor e suas posições liberais, temendo ser considerado radical diante de uma série de levantes de escravizados, como a Revolta dos Malês, na Bahia, e das Carrancas, em Minas Gerais.
Do ponto de vista acadêmico, ficou conhecido por ser um dos primeiros brasileiros a discutir a Revolução do Haiti, presente no imaginário dos senhores de engenho brasileiros, que temiam algo de mesma magnitude em terras tupiniquins.
Rebouças via o levante como forma de advogar contra a discriminação racial, apesar de não se posicionar claramente contra a escravidão.
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Autor de obras sobre histĂłria e direito civil, sua área de especialidade, deixou uma biblioteca com obras completas de Molière, Pierre Corneille, Blaise Pascal, Montesquieu e Mirabeau, todos precursores do pensamento liberal francĂŞs que o polĂtico seguia.
Em 1865, apĂłs a morte da esposa, Carolina Pinto Rebouças, o polĂtico retira-se da vida pĂşblica, sendo ainda nomeado advogado do Conselho de Estado do ImpĂ©rio em 1866. Em 1870 aposenta-se, apĂłs ser acometido por uma cegueira.
Morreu dez anos depois, no Rio de Janeiro. Deixou oito filhos, entre eles o abolicionista AndrĂ© Rebouças e os engenheiros AntĂ´nio Pereira Rebouças Filho e JosĂ© Rebouças, tambĂ©m lembrados em monumentos, estradas e outras obras por todo o paĂs.
RAIO-X | ANTÔNIO PEREIRA REBOUÇAS
Primeiro deputado negro do paĂs, nasceu em Maragogipe (BA) em 1798, mas se mudou para Salvador e depois para o Rio de Janeiro. Foi advogado autodidata e conselheiro de dom Pedro 2Âş. Foi secretário de governo de Sergipe, membro do Conselho Geral da Bahia em 1828 e parlamentar da provĂncia entre 1835 e 1845. Fundou e trabalhou no jornal "O Bahiano", e recebeu o tĂtulo de oficial da Ordem do Cruzeiro. Morreu em 1880 na capital do ImpĂ©rio.
Fonte: FOLHA / Matheus Tupina
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