Macron chega ao Brasil em meio a impasse no acordo entre Mercosul e UE
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Macron chega ao Brasil em meio a impasse no acordo entre Mercosul e UE
Março 26, 2024

O presidente da França, Emmanuel Macron, barrou o debate do acordo de livre comĂ©rcio entre os blocos apĂłs pressĂŁo do setor agrĂcola francĂŞs
Porto Velho, RO - Em viagem oficial ao Brasil pela primeira vez, o presidente francĂŞs Emmanuel Macron chega a BelĂ©m (PA), nesta terça-feira (26/3), para uma sĂ©rie de compromissos no paĂs, alguns deles junto ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). A vinda do chefe de Estado ocorre em meio ao impasse no acordo de livre-comĂ©rcio entre o Mercosul e UniĂŁo Europeia (UE), que Ă© discutido há mais de 20 anos.
Nos Ăşltimos meses, a França tem sido a principal força de oposição para nĂŁo celebrar o tratado: protestos de fazendeiros, pressĂŁo do setor agropecuário e de ambientalistas e atĂ© declarações contrárias de Macron sĂŁo um dos exemplos desse “entrave” nas tratativas.

Os dois presidentes se reuniram na COP28, em Dubai Corbis/Getty Images
O texto chegou a ser assinado em 2019, pleno governo de Jair Bolsonaro (PL), mas, sem a ratificação dos dois blocos, tornou-se inválido. Em dezembro do ano passado, o Itamaraty esperava firmar o acordo, enquanto o Brasil ainda presidia o Mercosul.
Contudo, no mesmo perĂodo Macron fez duras declarações ao tratado entre os blocos: “Sou contra o acordo Mercosul-UE, porque acho que Ă© completamente contraditĂłrio com o que ele [Lula] está fazendo no Brasil e com o que nĂłs estamos fazendo, porque Ă© um acordo que foi negociado há 20 anos, e que tentamos remendar, mas está mal remendado”.
“Adicionamos cláusulas no inĂcio para agradar a França, mas nĂŁo Ă© bom para ninguĂ©m, porque nĂŁo posso pedir aos nossos agricultores, Ă s nossas indĂşstrias, na França e em toda a Europa, que façam esforços, que apliquem novas medidas para descarbonizar, para deixar certos produtos, para depois dizer: ‘Estou removendo todas as tarifas para trazer produtos que nĂŁo aplicam essas regras”, concluiu.
Mesmo com as declarações contrárias de Macron, o governo francĂŞs tem evitado falar sobre o acordo entre Mercosul e UE, reforçando que o foco está nas eleições do Parlamento Europeu, que ocorrem em menos de trĂŞs meses: “Oficialmente, o governo da França protela uma decisĂŁo, já que o foco para o paĂs sĂŁo as eleições no Parlamento Europeu este ano”.
Apesar disso, há uma expectativa de que Lula e Macron conversem sobre o acordo comercial entre Mercosul e União Europeia.
Confira a agenda de Macron no Brasil:
— Terça-feira (26/3), em BelĂ©m (PA)
Debate sobre o meio ambiente com Lula e indĂgenas
— Quarta-feira (27/3), em SĂŁo Paulo (SP)CerimĂ´nia de inauguração do submarino Tonelero
Discussão com Lula sobre planos de cooperação na produção de submarinos, bem como um programa de nacionalização de helicópteros
Ida ao fórum econômico na Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), com o vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB)
PossĂvel passeio pela Avenida Paulista e visita ao Museu de Arte de SĂŁo Paulo, o Masp
— Quinta-feira (28/3), em BrasĂlia (DF)Conversa bilateral com Lula no Palácio do Planalto
Almoço no Palácio do Itamaraty
Visita ao Congresso Nacional
O protecionismo agrĂcola francĂŞs
Vale ressaltar que, tradicionalmente, o movimento de fazendeiros tem capital polĂtico significativo na França. Desta forma, devido Ă pressĂŁo do setor agropecuário, de ambientalistas e da sociedade civil franceses, Macron precisa alinhar seu discurso para agradá-los.
Esse protecionismo agrĂcola europeu, em especial o francĂŞs, Ă© a principal barreira no processo de ratificação do acordo entre Mercosul e UniĂŁo Europeia. Segundo especialistas ouvidos pelo MetrĂłpoles, a pressĂŁo desse setor e a “fragilidade” do atual governo francĂŞs sĂŁo um dos fatores que contribuĂram para que Macron assumisse uma postura mais contundente nas tratativas.
Flavia Loss de Araujo, professora de Relações Internacionais da Fundação Escola de Sociologia e PolĂtica de SĂŁo Paulo (FESPSP) e do Instituto Mauá de Tecnologia, afirma que o setor agrĂcola tem “uma longa tradição na Europa de barrar acordos comerciais”.
Isso porque, como explica a professora, “para esses grupos de fazendeiros e agricultores europeus, nĂŁo Ă© interessante fazer acordos de livre-comĂ©rcio com paĂses que tĂŞm grande capacidade competitiva” na área agrĂcola e pecuária, como: Brasil, Argentina e Austrália.
Para tentar barrar essas tratativas, o setor agrĂcola conta com a influĂŞncia e o apoio do Estado para fazer lobby. “O protecionismo francĂŞs Ă© antigo. O que tem acontecido, agora, Ă© que eles estĂŁo pressionando muito o governo de Macron, que possui suas fragilidades e, por isso mesmo, tem que agradar esses setores”, explica Loss.
Apesar das tentativas do grupo de agricultores, a ComissĂŁo Europeia mostrou-se inclinada para continuar as negociações com o Mercosul. PaĂses-membros, como a Alemanha e Espanha, indicam estarem dispostos a apoiar o andamento do acordo.
Carolina Pavese, professora de relações internacionais da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), reforça que o apoio de Macron a essa agenda “vem para tentar contemplar e contentar esses grupos, que tĂŞm muita influĂŞncia na polĂtica domĂ©stica”.
Ela destaca que o protecionismo europeu tem “jogado gasolina” dentro desses movimentos, com o intuito de expandir o discurso eurocĂŞntrico em pleno ano das eleições no Parlamento Europeu, que ocorrem de 6 a 9 de junho.
“As pesquisas apontam para um crescimento da representação dos partidos de extrema direita no Parlamento Europeu, que muitas vezes sĂŁo partidos eurocĂ©ticos, que se opõem ao processo de integração. EntĂŁo, gera uma sĂ©rie de obstáculos Ă prĂłpria UE”, conta.
Agora, nessa corrida eleitoral, candidatos da extrema direita têm se aproximado de movimentos e setores descontentes com a própria UE, visando usar a pauta do protecionismo para deslanchar as candidaturas dos seus respectivos partidos nas eleições.
“Esse Ă© mais um capĂtulo nessa conturbada histĂłria do acordo, que apenas se coloca como mais um obstáculo entre tantos que já foram transcorridos. Mas, sinaliza que ainda nĂŁo Ă© um consenso e que o acordo, uma vez que entre em um processo de ratificação, vai encontrar oposição”, analisa Pavese.
Fonte: Metropoles
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