Abin Paralela: a quem interessa conter o trabalho de ONGs, ativistas e da imprensa livre?
Página inicialBRASILAbin Paralela: a quem interessa conter o trabalho de ONGs, ativistas e da imprensa livre?
Abin Paralela: a quem interessa conter o trabalho de ONGs, ativistas e da imprensa livre?
Julho 16, 2024

Um governo que faz uso de órgão de inteligência para ações de perseguição e violação de direitos fundamentais de seus cidadãos e instituições ocupa formalmente o campo do autoritarismo
Porto Velho, RO - A revelação do escândalo da atuação ilegal da Abin (AgĂŞncia Brasileira de InteligĂŞncia) causou espanto e apreensĂŁo nĂŁo apenas entre a classe polĂtica, mas tambĂ©m entre as muitas organizações da sociedade civil, jornalistas e atĂ© servidores pĂşblicos que descobriram ter sido espionados de maneira clandestina e totalmente em desacordo com as regras que garantem o Estado democrático de direito.
É fundamental refletirmos neste momento sobre os motivos que levam um órgão de governo a monitorar entidades que atuam em defesa da democracia e do meio ambiente, que lutam para diminuir a concentração de poluentes no ar, para dar voz à população preta, para incluir os mais pobres e para manter o direito de jornalistas investigarem suas pautas. Quem tem medo do terceiro setor e a quem interessa conter o avanço do debate público dos temas de interesse social?
De acordo com a investigação, conduzida pela PolĂcia Federal, uma verdadeira organização criminosa se formou durante o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro e utilizado o ĂłrgĂŁo de inteligĂŞncia para monitorar pessoas e autoridades pĂşblicas atravĂ©s do uso de softwares de espionagem sem autorização judicial. Interceptação, violação de sigilo e invasĂŁo de dispositivos eletrĂ´nicos sĂŁo alguns dos crimes revelados atĂ© o momento.
O trabalho da PolĂcia Federal vem revelando o cenário de risco iminente de ruptura democrática que o paĂs atravessou durante a gestĂŁo Bolsonaro. Sob a direção de Alexandre Ramagem, atualmente deputado federal do Partido Liberal (PL) eleito pelo Rio de Janeiro, a estrutura da agĂŞncia de inteligĂŞncia do governo foi utilizada para proteger e blindar a famĂlia do entĂŁo presidente, para espalhar desinformação atravĂ©s da criação de perfis falsos em redes sociais e atĂ© mesmo para lançar dĂşvidas sobre a lisura do processo eleitoral do paĂs.
O grupo teria construĂdo um aparato de contrainteligĂŞncia para empreender ataques sistemáticos a adversários polĂticos, ao sistema eleitoral e Ă s instituições pĂşblicas, e entidades da sociedade civil contrários aos seus interesses. A investigação em curso, iniciada em 2023, revela que foram monitoradas autoridades dos TrĂŞs Poderes da RepĂşblica, alĂ©m de jornalistas, comunicadores sociais e associações da sociedade civil.
Dada a gravidade das revelações, a Rede Liberdade, grupo de advogadas e advogados que atuam na defesa dos direitos humanos, protocolou imediatamente após o levantamento parcial do sigilo das investigações, um pedido de reunião extraordinária com a Secretária Nacional de Justiça do Ministério da Justiça e Segurança Pública com o objetivo de assegurar a proteção dos jornalistas e a integridade da imprensa.
Como membro do Observatório da Violência contra Jornalistas e Comunicadores Sociais do Ministério Público, acreditamos que a segurança dos jornalistas e a proteção da liberdade de imprensa são pilares essenciais da nossa democracia, e enfatizamos a necessidade urgente de uma análise aprofundada do caso, sugerindo inclusive a criação de um grupo de trabalho para monitorar as investigações e desenvolver estratégias que fortaleçam e promovam a atuação do trabalho livre da imprensa.
Também apoiamos a nota de posicionamento conjunta lançada pelas seis organizações sociais que se descobriram monitoradas até o momento: Sleeping Giants Brasil, Advocacy Hub, Aos Fatos, Instituto Sou da Paz, NOSSAS e Agência Lupa.
Um governo que faz uso de órgão de inteligência para ações de perseguição e violação de direitos fundamentais de seus cidadãos e instituições ocupa formalmente o campo do autoritarismo e distancia-se dos fundamentos mais básicos da democracia. Esta percepção se torna ainda mais grave quando olhamos em retrospecto para a tentativa de golpe de Estado de 8 de janeiro de 2023 contra o novo governo legalmente eleito.
É fundamental que as entidades civis acompanhem de perto o desenrolar das investigações e cobrem dos ĂłrgĂŁos competentes que sejam tomadas todas as medidas cabĂveis para responsabilizar e punir os envolvidos nos atos criminosos, assim como para garantir a legalidade das ações presentes e futuras da Abin e de seus servidores.
O caso mostra a necessidade premente de manter o terceiro setor firme e de pĂ©. Com a mudança parcial do cenário polĂtico da Ăşltima eleição presidencial, criou-se a perigosa impressĂŁo de que temos uma democracia sob controle, mas os fatos deixam evidente que isso ainda nĂŁo está totalmente assegurado. Mais que nunca, Ă© preciso fomentar e garantir a continuidade das atividades de lideranças ativistas, das organizações civis e da imprensa livre no Brasil.
Fonte: Carta Capital
Tags
BRASIL

Nenhum comentário